quinta-feira, 16 de julho de 2015

O PREÇO DA VERGONHA E A CULTURA DA HUMILHAÇÃO



Assisti recentemente à palestra “O preço da vergonha” de Mônica Lewinsky. Em 20 minutos ela conseguiu reverter em mim a imagem inquestionavelmente negativa que, há 17 anos, a mídia criou a seu respeito.

Num dos momentos da palestra ela diz que permaneceu sem se pronunciar publicamente pelos últimos 10 anos, mas decidiu quebrar o silêncio e explicou os porquês desta decisão.

https://www.ted.com/talks/monica_lewinsky_the_price_of_shame?language=pt-br

A palestra merece muitos elogios. É, no mínimo, ótima! Tão boa que me motivou a escrever novamente. Aborda, com sentimento, assuntos profundamente doloridos – cyberbullying, suicídio, depressão, humilhação, escracho em escala global – mas acima disso, desperta um olhar consciente sobre nossas escolhas... Escolhas feitas por amor e escolhas expressas em cliques.

Refleti muito sobre isso. Espero conseguir transmitir minhas impressões...

Graças aos avanços tecnológicos, estamos todos mergulhados num oceano de informações. Para onde olhamos, somos invadidos por imagens, vídeos, mensagens, sons. O que, disso tudo, nos prende a atenção? Depende das nossas preferências; do que nos causa alguma sensação relevante.

Facilmente constata-se que há muita preferência por tragédias, vexames, traições. Quanto maior o escândalo ou o estrago, mais atenção atrai. O problema é que por trás de cada episódio impactante há pessoas reais envolvidas. Suas vidas, sentimentos e saúde são duramente comprometidos por uma exploração irresponsável por parte de quem se interessa. E, honestamente, quem nunca se interessou por uma “desgraçazinha” qualquer? Quem nunca acrescentou sua dose de maldade gratuita a alguém que já está suficientemente exposto?

O fato é que há uma força monstruosa que gerencia esse interesse. A cultura da humilhação financia negócios milionários. Quanto mais cliques, mais propagandas são vendidas naquele espaço virtual, o que aumenta o consumismo e o lucro.

Mas satisfazer uma curiosidade (minha, sua, nossa) e deleitar-se com as sensações provocadas implica em ignorar o ser humano ali envolvido. Pode haver muita dor por trás de tudo o que a mídia mostra, inventa ou aumenta.

Somos “iscas de clique”. Iscas bobinhas, diga-se de passagem. E isso é tão sério! E é tão difícil não ser uma “isca de clique”. Mas é perfeitamente possível ter o controle sobre a nossa opinião, sobe o juízo que fazemos das coisas que nos são apresentadas. E mais: é necessário que paremos para nos observar diante do clique e das sensações provocadas depois de ter tido acesso à informação. O que lhe acrescentou? Você está melhor? Foi enriquecedor ou construtivo?

A ausência de compaixão e empatia, diz Mônica Lewinsky, tem provocado muitas mortes. As pessoas se matam depois de uma superexposição. Muitas vezes foram enganadas, filmadas sem permissão, perseguidas. Uma vez na rede, o planeta inteiro pode exercer seu livre-arbítrio e condenar ou demonstrar a sua compaixão. Lamentavelmente as condenações ainda são muito maiores do que as manifestações de compaixão.

Mas porque é assim? Para mim, uma das causas é o distanciamento. Na exata medida em que a rede nos aproxima, permitindo que nos comuniquemos ou vejamos em tempo real qualquer pessoa ou pedacinho do planeta, ela distancia nossos corações.

Temos nas mãos uma ferramenta fantástica de comunicação. Nossos celulares são capazes de conduzir a humanidade para um bem nunca antes visto. Somos os únicos responsáveis pelos cliques que escolhemos, pelas notícias que espalhamos, pelos vídeos que compartilhamos. As consequências de nossas atitudes virtuais acontecem em segundos. Que sejamos capazes de espalhar pelo mundo o que há de bom: ideias, soluções, esclarecimentos, reflexões que promovam uma higiene emocional em pessoas petrificadas por suas formas-pensamento.

Se você já se importa com a dor do outro e quer ser a mudança que deseja ver no mundo, atente-se aos seus cliques e observe-se diante das sensações provocadas. Ao identificar qualquer incômodo, prefira compartilhar duas (ou mais) boas notícias para cada tragédia da qual tomou conhecimento. Rapidamente você será um verdadeiro agente na melhora da qualidade da humanidade que está sobre a face desta Terra.

Ah!... Quanto às escolhas feitas por amor, Mônica pagou um preço bem alto. Mas o que fica para mim é a força com que hoje ela se apresenta. Sua experiência, sua sobrevida, a superação do colapso que arruinou não somente a sua carreira, mas principalmente sua reputação moral, e a forma como se conduziu em tal superação por quase duas décadas atribuíram-lhe um poder nunca antes imaginado. Poder este que ela tem usado para despertar consciência, compaixão, empatia, ou seja, através de Mônica Lewinsky, a vergonha e a humilhação, em seu mais alto nível, estão servindo à aproximação dos corações humanos.

Celebremos os despertares!



Imagens: Gettyimages e TED

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